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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

THERESIENSTADT– DO LEITO DE MORTE DO ESTOPIM DA PRIMEIRA GUERRA À CAMPO DE CONCENTRAÇÃO

Eis que em 24 de novembro de 1941, era inaugurado o Campo de Concentração e Ghetto de Theresienstadt.
O TRABALHO LIBERTA - Famosa frase escrita na entrada do Pequeno Forteem Theresienstadt.
Localizado e construído na então Tchecoslováquia (atual República Tcheca), na cidade de Terezin, nos idos de 1780. A Fortaleza de Theresienstadt fora um desejo do Arquiduque da Áustria e monarca do Sacro Império Romano-Germânico Joseph II. Theresienstadt deveria ser parte de um complicado sistema de fortalezas que protegeriam a monarquia, porém, apenas esta fora finalizada, haja vista que no ano de sua conclusão, em 1790, fora o mesmo em que o Imperador viera a falecer. Com o passar dos anos e o evoluir das formas de guerra, a Fortaleza de Theresienstadt se tornara obsoleta para o uso da qual fora planejado. Sendo assim, na virada do Século XIX para o Século XX, o forte passou a ser utilizado como prisão. Dentre um dos mais conhecidos prisioneiros a tomar residência nas celas de Theresienstadt fora o famigerado Gavrilo Princip, o algoz do Arquiduque Franz Ferdinand e sua esposa, motivo este que dera o estopim para a deflagração da Primeira Grande Guerra. Gavrilo Princip veio a óbito na principal cela do complexo ainda em 1918, devido a uma tuberculose.
As solitárias de Theresienstadt
Eis que passam-se os anos e Adolf Hitler se torna o Führer da Alemanha, lançando seu olhar e seus punhos de aço para os países vizinhos. Hitler já havia adicionado a Áustria ao território alemão, por meio da Anschluss, ou Grande Anexação, em 1938, alegando que a Alemanha precisava de um espaço vital (Lebensraum) para a expansão territorial do povo alemão. Agora, a menina dos olhos do Führer era a Tchecoslováquia, cujo alvo principal era os Sudetos, região predominantemente alemã, localizada no entrave territorial entre Boêmia, Morávia e Silésia. Após uma demorada reunião em que estavam presentes o Führer Adolf Hitler, o então primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, o também primeiro-ministro Édouard Daladier da França e o ditador italiano Benito Mussolini, se chegou num acordo conhecido como Pacto de Munique, ao qual, em nome de uma malfadada paz mundial, destroçou-se a soberania nacional da Tchecoslováquia. Em 10 de março de 1939, Hitler desrespeita o acordo firmado no pacto, de ocupar tão somente a região dos Sudetos, vindo a invadir toda a Tchecoslováquia, transformando-a numa nação fantoche da Alemanha Nazista.
Já durante a ocupação alemã, iniciou-se a caça aos judeus tchecos. Em 10 de junho de 1940, a Gestapo passou a ter o controle da cidade de Terezin, e com isso, do Forte de Theresienstadt, do qual manteve-se a função de prisão até o ano seguinte, quando fora transformado esse complexo murado num híbrido de Guetto e Campo de Concentração. Inicialmente, a SS usara somente a “fortaleza menor” como prisão para inimigos políticos e contrários à ocupação do país. Todavia, com as demandas de prisioneiros em decorrência da deflagração da Operação Barbarossa, em julho de 1941, os alemães passaram a usar todo o complexo de fortificações a partir daquele ano, transformando-o em um Campo de Concentração. Segundo levantamento da Cruz Vermelha, aproximadamente 150 mil judeus e demais prisioneiros foram alocados em Theresienstadt.  A maioria dos reclusos eram judeus checos. Todavia, haviam judeus e prisioneiros vindos de todas as partes da Europa, principalmente do Leste. Dentre os prisioneiros, cerca 40.000 eram da Alemanha, 15.000 da Áustria, 5.000 da Holanda e 300 do Luxemburgo, além de um grupo de cerca de 500 judeus dinamarqueses, eslovacos e húngaros que foram alocados no gueto. Cerca de 1.600 crianças judias vindas da fronteira com a Polônia foram deportadas de Theresienstadt para Auschwitz, da qual acredita-se que nenhuma tenha sobrevivido.

Um dos beliches dispostos aos prisioneiros 
Os prisioneiros eram constantemente guardados por guardas da SS, bem como policiais voluntários tchecos. O Campo de Concentração de Theresienstadt estava estrita e diretamente submetido às ordens do SS-Obersturmbannführer Otto Adolf Eichmann e seus homens. Eichmann era o braço direito do SS-Obergruppenführer Reinhard Heydrich para o assunto de deportações judias nos territórios ocupados do Leste Europeu. Além de prisioneiros advindos do Centro-Leste europeu, houve um caso em que prisioneiros de guerra provenientes do Reino Unido e suas colônias foram enviados para Theresienstadt, como punição por tentativa de fuga de outros campos. No pós-guerra, a Alemanha fora condenada a pagar aproximadamente 1 milhão de euros ao Reino Unido, pois manter prisioneiros de guerra dos países signatários da Convenção de Genebra em tais condições de campo era um crime de guerra.
O principal trabalho realizado no campo era o de fornecer ao esforço de guerra alemão minérios de Mica, um mineral de alto brilho, amplamente usado para a confecção de conectores para o sistema de rádio usado nos blindados e bases alemães. Além disso, os presos do complexo tinham a função de tingir os uniformes dos soldados alemães, que passaram a enfrentar o inferno gelado soviético. Segundo os ex-prisioneiros, Theresienstadt também servia como um centro de classificação e redistribuição de roupas íntimas e demais peças de roupas confiscadas dos judeus, que seriam destinadas aos cidadãos alemães que estavam perdendo suas casas e roupas com os constantes ataques aéreos aliados.
Depois do deflagrar da Operação Overlord e da Invasão da Normandia no Dia-D pelos aliados ocidentais, bem como o constante avanço soviético pelo leste, os alemães já vislumbravam o malfadado fim do Terceiro Reich. Ante a derrota iminente, os oficiais da SS passaram a realmente se preocupar com os boatos que circulavam acerca dos campos de extermínio. Tentando esconder tais informações, permitiram que representantes da Cruz Vermelha Dinamarquesa e da Cruz Vermelha Internacional visitassem. A comissão realizou a visita em 23 de junho de 1944, acompanhados do Dr. Eigil Juel Henningsen, médico principal do Ministério da Saúde dinamarquês, e Franz Hvass, o principal funcionário do Ministério das Relações Exteriores dinamarquês. O Dr. Paul Eppstein foi instruído pela SS para atuar no papel de “prefeito” de Theresienstadt. Para se prepararem para tal visita, iniciou-se a “Operação Embelezamento”, a qual os judeus com aparência e saúde mais debilitada foram deportados para Auschwitz, lojas e cafés falsos foram construídos, além de terem obrigado aos judeus a deixaram o campo impecavelmente limpo. Os representantes da Cruz Vermelha foram conduzidos em uma turnê seguindo um caminho previamente designado por uma linha vermelha em um mapa, da qual conversaram com judeus que foram obrigados a falar exatamente o que os alemães queriam. O resultado dessa visita foi deveras óbvio. A Cruz Vermelha constatou a vida razoavelmente tranquila que os judeus daquele campo levavam, onde se respeitava as leis que regiam o tratamento de prisioneiros de guerra da época.

Mulheres judias enfrentam o rigoroso inverno com
pouquíssima roupae cobertas
Após o sucesso da maquiagem feita em Theresienstadt, do qual conseguiu-se mostrar ao mundo um campo de internamento modelo atestado pela Cruz Vermelha, os nazistas decidiram gravar um filme de propaganda no local. O filme fora dirigido por um dos detentos, o judeu Kurt Gerron. Kurt fora um renomado ator na época, chegando a contracenar com a belíssima atriz alemã Marlene Dietrich em “O Anjo Azul”, filme que ganhou fama no mundo todo, inclusive no Brasil. As filmagens duraram onze dias, de 01 a 12 de setembro de 1944. Depois da conclusão e lançamento da película, Kurt e grande parte do elenco foram mandados para Auschwitz. Gerron foi gaseificado em 28 de outubro de 1944.
Segundo dados da Cruz Vermelha, durante os três anos e meio de funcionamento, dos quase 150 mil prisioneiros que passaram por Theresienstadt, cerca de 88.000 prisioneiros foram deportados para Auschwitz  e Treblinka.  Quando os russos chegaram a Tchecoslováquia, em 08 de maio de 1945, pouco mais de 17 mil haviam sobrevivido. Os governos da Dinamarca e Holanda, já livres do jugo nazista, se comprometeram com os resgates dos sobreviventes dos seus respectivos países, enviados primeiramente para a Suíça e posteriormente para casa. Dentre  os prisioneiros que foram encarcerados no Campo de Concentração, uma das mais importantes, sem duvida alguma, foi Esther Adolfine Freud, ninguém menos que a irmã do famoso neurologista alemão Sigmund Freud.


Postado por Diego Saviatto

FONTES:

 - ADLER, H.G. THERESIENSTADT, 1941-1945 - Ed 1. CAMBRIDGE – USA. 2015.
 - CHLADKOVA, Ludmila (2005). O GUETO DE TEREZÍN – texto original do inglês. Traduzido em 24/11/17.
 - FOTOS: www.penaestrada.blog.br/o-campo-de-concentracao-de-terezin-parte-i/